“Mais Do Que Máscaras: Quando A Extensão Universitária (PET) Descobre O Coração Da Integração”
Há alguns meses, minha companheira Margarita e eu (Nicole) tivemos uma oportunidade nascida do PET (Programa de Educação Tutorial). Para quem não conhece, o PET é uma iniciativa do Ministério da Educação do Brasil que vincula a universidade à comunidade. Por meio de bolsas, incentiva que grupos de estudantes (tutorados) desenvolvam atividades acadêmicas e de extensão, levando o conhecimento para além das salas de aula universitárias e aprendendo com a realidade social. Nossa missão dentro desse quadro era, a princípio, simples e concreta: realizar uma atividade de extensão artística com um grupo de crianças. O plano oficial era uma oficina de máscaras. A ideia era nos aproximar, compartilhar uma experiência criativa e cumprir aquele lindo objetivo do PET de criar pontes. Mas, como costuma acontecer quando o plano encontra a vida real, a atividade nos devolveu muito mais do que levamos. O cenário que encontramos: uma sala de aula vibrante onde conviviam o espanhol, o guarani e o português. Das 15 crianças de 8 e 9 anos, 7 manejavam dois ou três idiomas e 8 falavam principalmente português. Lá estávamos nós, com nossas máscaras e tintas, prontas para conduzir a atividade artística que havíamos planejado. O que aconteceu redefiniu nosso "plano de extensão". Ao dar as instruções em espanhol, Margarita e eu vimos algo que nenhum manual do PET poderia nos ter ensinado melhor. Não houve barreiras, mas pontes instantâneas. As crianças bilíngues se tornaram, sem que ninguém lhes pedisse, nossas colaboradoras naturais. Com uma naturalidade que nos deixou agradavelmente impactadas, traduziam e explicavam aos colegas em português: "Ela disse que temos que pintar primeiro" ou "podem colar assim". A orientação do PET de "extensão" tomou um significado literal. A atividade se estendeu horizontalmente, de criança para criança. A sala de aula se transformou em uma verdadeira oficina colaborativa, onde circulavam não apenas lantejoulas e cola, mas também explicações, ideias e uma dose surpreendente de ânimo e participação. E o idioma… o idioma foi a verdadeira "obra de arte". Embora o português fosse a corrente principal, nas conversas mais íntimas entre amigos paraguaios brotava o espanhol, misturando-se com naturalidade em um mesmo pensamento: "Este papel está legal!". Essa troca de código não era um obstáculo para o PET, era a evidência viva de um diálogo intercultural que já existia e que nossa atividade apenas evidenciou. Nossa reflexão: Fomos como facilitadoras de uma oficina, pensando no produto (as máscaras). Mas o PET, em sua essência, trata do processo de vinculação com a comunidade. E foi exatamente isso que vivemos. Entendemos que nosso papel não era apenas conduzir, mas observar e possibilitar a inteligência social que já fervilhava naquela sala. A "mediação linguística" e a colaboração que testemunhamos foram a melhor demonstração possível dos valores que a extensão universitária busca fomentar: solidariedade, inclusão e construção coletiva do saber. Esta experiência nos reafirmou algo profundo: programas como o PET são vitais, não apenas pelo que levam à comunidade, mas, sobretudo, pelo que recebem dela. Uma oficina artística revelou um modelo vivo de educação inclusiva e bilíngue, construído a partir da empatia das crianças. A diversidade linguística, longe de ser um problema a resolver, mostrou-se como o recurso pedagógico mais rico da sala de aula.
Para fechar este relato: podemos dizer que saímos do “núcleo da criança” com as mãos sujas de tinta e um punhado de máscaras coloridas, mas no coração levávamos algo muito mais valioso: uma história viva, que não cabe no formato de um relatório acadêmico, mas que pulsa com força em cada reunião do nosso grupo PET. Ensinou-nos que os verdadeiros objetivos da extensão universitária não se cumprem apenas ao "chegar" a uma comunidade, mas ao abrir os olhos e os ouvidos para receber o que ela tem a nos ensinar. As crianças nos mostraram como a colaboração real se constrói em gestos concretos: compartilhar uma palavra, uma explicação, um material. A oficina de máscaras foi o pretexto; a verdadeira atividade foi observar e registrar essa inteligência coletiva em ação. Vocês já tiveram uma experiência semelhante em atividades de extensão ou voluntariado onde os planos tomaram um rumo inesperado e maravilhoso?
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